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 Relato de uma vampira Paulista

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gretelferraz
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Data de inscrição : 08/11/2009
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MensagemAssunto: Relato de uma vampira Paulista   Qui Nov 19, 2009 5:25 pm

Começo com o depoimento de A.J., uma paulista com cerca de 30 anos.

Não sei se isso é genético, mas posso dizer que essa "particularidade" está presente na minha vida desde que me entendo por gente e, recentemente, "acordei" para isso (...). Comigo, tudo começou com o meu interesse a respeito do assunto. Eu, na época uma garota sem o menor discernimento, lia um monte de abobrinhas e não sabia no que confiar. Aos poucos, iniciei um projeto de auto-conhecimento extremamente traumático. Voltar-se a si e surpreender-se com a descoberta sempre machuca. Comecei a ter muitos sonhos estranhos e sabia que deveria prosseguir. Consegui manter a cabeça no lugar e perdi um pouco o medo do que estava por vir.
Comecei a conversar com algumas pessoas que eram como eu. Conheci algumas pessoalmente, mas eu ainda tinha medo de perder o controle. Era estranho pensar que, de repente, enxerguei-me como algo comumente desacreditado, apesar de as coisas que aconteciam comigo serem bem diferentes do que é narrado na ficção (...). Minha aceitação demorou bastante, e isso faz muito tempo (...).

Demorou, mas com o tempo aprendi a ser calma e a entender melhor o que é a "fome". Eu acordo, trabalho, volto para casa, durmo, e ela continua sempre lá, escondida dentro de mim, esperando a hora certa de se insurgir. Eu particularmente nunca precisei de muito sangue, minha necessidade é moderada. Aceitar a fome é torná-la menos assustadora. Aos poucos você aprende a controlá-la, como num regime.

Normalmente ela vem acompanhada de enxaquecas e mau humor. Neste caso, ocupo-me de algo que desvie minha atenção, pois assim não dou muita bola para os sintomas. Antigamente, queria viver sem isto, ser uma pessoa "normal". Eu me sentia mal de pensar que estaria me alimentando de alguém, mas hoje eu aceito sangue como quem aceita presentes. Prefiro, é claro, praticar isto com alguém que seja como eu, para que possamos doar um ao outro. Além de ser mais íntimo, é bem mais seguro.

Não gosto de variar doadores. Tenho um parceiro fixo com quem pratico isto. Não posso subestimar as muitas doenças transmissíveis; ainda que ingerir sangue represente o mesmo risco que sexo oral, nunca se sabe quando é que tiraremos a "sorte grande". Quando você toma sangue de alguém, você não está simplesmente bebendo um líquido vermelho e quente. Você está entrando em contato com a energia daquela pessoa e, bem ou mal, ela passa a viver dentro de você. Não quero este tipo de contato com estranhos; sou um tanto territorial.

Infelizmente, não vivemos num mar de rosas. Quando se fica com fome, seus sentidos ficam mais aguçados, barulhos altos irritam, o sol incomoda mais e você invariavelmente enxerga pessoas como frangos assados. Se fico muito tempo sem me valer de meu doador, fico tonta, tenho calafrios e sinto um grande vazio na barriga. A temperatura de meu corpo cai um pouco, minha pele fica mais gelada e fico muito irritada. Mas passa.

Não sei se conseguirei explicar o que acontece comigo quando ingiro sangue. Geralmente eu não necessito de muito para me satisfazer. Alguns mililitros já são suficientes. A sensação é muito reconfortante, um calor na garganta e na barriga, como se ele estivesse sendo absorvido assim que tomado. Sinto um grande bem-estar, acompanhado duma leveza e duma leve vertigem. Nunca me senti enjoada ou com ânsia nessas ocasiões. Muitas pessoas dizem que sangue não pode ser digerido, mas ele pode. Se você tomar muito e não estiver acostumado, vai se sentir mal e pode até vomitar; mas, feito da forma certa, isso não acontece.

(...)

O que sei é que faço isso e não me envergonho. Muitas vezes, esqueço-me destes detalhes do meu cotidiano, mas duma forma ou de outra eles acabam me mandando um recadinho. Não me alimento de sangue há muito tempo, estou numa espécie de abstinência voluntária. Ultimamente, não tenho condições de dar muita atenção a este aspecto de minha vida que anda dormente, esperando um pouquinho de calma para poder voltar a me incomodar. Tenho pontos de vista que podem ser considerados "anormais" pela sociedade, mas não sou nenhuma psicopata. Respeito muito as pessoas ao meu redor, e, da mesma forma, exijo respeito. E assim, cautelosamente, continuo vivendo.


(Publicado em “Laços Sanguíneos: A Atual Subcultura Vampírica”, de José Octavio Stevaux Galvão. In: Cid Vale Ferreira, org., Voivode. Estudos sobre os Vampiros. Jundiaí: Pandemonium, 2002, p. 111-113.)
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